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Quando a Mente Silencia e o Corpo se Arrasta

QUANDO A MENTE SILENCIA E O CORPO DE ARRASTA

Por vezes, não encontramos razões claras para a divagação da mente. Não há estímulos intensos, nem reações adversas gritantes, apenas um marasmo letal, como um nevoeiro denso que se instala sem aviso. A mente, outrora ágil, parece mergulhada em um lago parado; os pensamentos se arrastam como se cada ideia precisasse atravessar um campo minado. O corpo, cúmplice dessa letargia, sente-se moído, como se tivesse enfrentado uma dura batalha contra um exército invasor.

E, no entanto, não há campos de guerra visíveis. Não há ruído de espadas, nem gritos de comando. A luta se dá no silêncio. É uma guerra invisível, travada nas trincheiras do espírito, onde forças desconhecidas tentam impor seu domínio. Não é raro que, diante desse peso, a alma procure razões. Surgem conjecturas para justificar a lentidão dos pensamentos: Será o cansaço,será apenas tristeza,será o mundo que se tornou pesado demais para ser carregado.

Mas, muitas vezes, não há resposta. O que há é um corpo exausto, uma mente que insiste em divagar e um coração que sente o peso de algo que não sabe nomear. É nesses momentos que compreendemos que a maior batalha não é contra o que se vê, mas contra o que se insinua na escuridão.

O salmista escreveu: “Por que estás abatida, ó minha alma, e por que te perturbas dentro de mim? Espera em Deus, pois ainda O louvarei; Ele é a salvação da minha face e o meu Deus” (Salmo 42:11). Há uma sabedoria profunda nesse verso. Ele não ignora a fadiga, não finge que a alma está bem. Ele reconhece o abatimento, mas não entrega a última palavra à tristeza.

Quando o marasmo nos paralisa, somos chamados a olhar para cima, não como quem espera um milagre instantâneo, mas como quem se ancora em uma rocha firme enquanto a tempestade passa. É no silêncio que o Senhor fala de maneira mais profunda. Às vezes, ele não afasta a sensação de peso de imediato, mas nos fortalece para suportar e seguir.

Há um descanso prometido àqueles que nele confiam. Não é o repouso da ausência de luta, mas o descanso de saber que a guerra já foi vencida por Cristo. No Calvário, ele enfrentou a batalha final contra todo exército invasor, o pecado, a morte e a condenação e triunfou. Assim, quando o cansaço mental e a exaustão física nos esmagam, podemos lembrar: a vitória já nos pertence, mesmo que o campo de batalha interior ainda esteja coberto de poeira e fumaça.

O marasmo letal, então, deixa de ser o fim e se torna apenas um vale. E como está escrito: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei mal algum, porque Tu estás comigo” (Salmo 23:4). O corpo pode estar moído, os pensamentos lentos, mas a alma, sustentada pelo Eterno, aprenderá novamente a correr.

É curioso como a exaustão que vem sem aviso se instala com tanto poder. Ela não chega com clarins e trombetas, mas com o som abafado de passos que ninguém ouve. Num instante, as forças minguam, o ânimo se dissolve e a vida, que antes pulsava, parece se arrastar.

Alguns chamariam isso de apatia; outros, de depressão silenciosa; outros ainda, de simples desânimo. Porém, para quem crê, é impossível não enxergar que há uma dimensão espiritual nessa paralisia. A Palavra nos adverte que nossa luta não é contra carne ou sangue, mas contra principados e potestades (Efésios 6:12). Isso significa que a mente cansada e o corpo moído podem estar no centro de um ataque invisível não contra nossa pele, mas contra nossa fé.

O inimigo conhece o valor de uma mente distraída. Ele sabe que, quando nossos pensamentos vagam sem foco, nossa esperança pode se enfraquecer. E, se a esperança se apaga, a fé, como uma chama pequena, pode parecer prestes a se extinguir. É por isso que a Palavra nos exorta: “Cingindo o vosso entendimento” (1 Pedro 1:13). Ou seja, apertando bem o cinturão que mantém a mente firme, não deixando que ela se espalhe no vento.

No entanto, não devemos confundir resistência com pressa. Deus não nos chama a vencer o marasmo correndo sem fôlego; Ele nos convida a caminhar com perseverança. Isaías 40:31 nos lembra: “Mas os que esperam no Senhor renovarão as suas forças; subirão com asas como águias; correrão e não se cansarão; caminharão e não se fatigarão”. Essa renovação não é mágica, mas sobrenatural. Ela acontece no tempo Dele, no ritmo Dele.

Talvez este marasmo que paralisa seja  apenas um convite para parar de lutar sozinho. Um chamado para aprender a repousar nas mãos do Oleiro, que molda o vaso mesmo quando este está mole e frágil. A mente dispersa e o corpo cansado não são sinais de fraqueza irreversível, mas evidências de que precisamos de restauração que só o Céu pode oferecer.

Nesse processo, a oração torna-se mais que um pedido, torna-se respiração. Não se trata apenas de dobrar os joelhos para falar palavras bonitas, mas de viver na presença de Deus mesmo em silêncio. Há orações que não têm frases, apenas suspiros. E Romanos 8:26 nos consola ao dizer que o Espírito intercede por nós com gemidos inexprimíveis.

Assim, a paralisia mental e física pode se transformar numa escola de paciência e dependência. O marasmo, que parecia letal, torna-se um lugar onde aprendemos a confiar não no nosso ritmo, mas no compasso eterno.

Um dia, olharemos para trás e veremos que aquela batalha invisível, que nos parecia um desperdício de tempo e energia, foi, na verdade, um treinamento silencioso. Foi ali, no cansaço sem nome, que o Senhor fortaleceu os músculos da fé, firmou os passos da esperança e afinou a melodia da nossa adoração.

E então, quando a mente voltar a clarear e o corpo recobrar ânimo, poderemos dizer com toda convicção: “Foi bom ter sido afligido, para que aprendesse os Teus decretos” (Salmo 119:71).

O vale da lentidão dos pensamentos e do peso corporal não é lugar para se construir morada, mas para atravessar. Ele existe, é real, e todos nós, em algum momento da caminhada, passaremos por ele. A diferença está em como o atravessamos e no que levamos ao sair dele.

Há quem entre nesse vale e, por não enxergar a saída, arme tendas e aceite a estagnação como destino. Mas o Senhor nunca nos chamou para permanecer onde a alma se sente aprisionada. Pelo contrário, Ele nos prometeu que “o choro pode durar uma noite, mas a alegria vem pela manhã” (Salmo 30:5). O problema é que, para quem está nesse marasmo, a “noite” parece não ter fim. O corpo sente cada hora como um fardo, e a mente se move como um rio que perdeu a correnteza.

É justamente aí que a fé deixa de ser apenas um conceito e se torna uma prática. Confiar em Deus quando tudo está claro é fácil; mas confiar quando as sombras encobrem o horizonte é um ato de entrega profunda. É como caminhar sobre as águas, não porque os pés têm poder, mas porque os olhos estão fixos em Cristo.

Muitas vezes, Deus não retira o peso de imediato porque há lições que só se aprendem na pressão. O apóstolo Paulo sabia disso quando escreveu: “Porque, quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Coríntios 12:10). O paradoxo da vida cristã é que a verdadeira força nasce da rendição total.

E há algo precioso que acontece na lentidão,começamos a perceber detalhes que a pressa não nos deixa ver. Na velocidade, passamos por paisagens sem contemplá-las; no marasmo, aprendemos a enxergar o valor de cada pequeno passo. Talvez seja por isso que o Salmo 23 fala de Deus nos fazer “deitar em verdes pastos” e “guiar-nos mansamente a águas tranquilas”. Essa mansidão não é derrota é cuidado.

Se o corpo se sente moído, que ele se lembre de que existe um descanso prometido para o povo de Deus (Hebreus 4:9). Se a mente se arrasta, que ela seja alimentada com a Palavra, mesmo que aos poucos, verso por verso, até que a luz volte a brilhar. Se o espírito parece abatido, que ele respire na certeza de que não caminha sozinho, pois aquele que prometeu estar conosco até o fim dos tempos permanece fiel.

E então, um dia, quase sem perceber, a alma sentirá o peso diminuindo. O corpo, que parecia vencido, responderá com passos mais firmes. A mente, antes dispersa, voltará a se alinhar como soldado pronto para a marcha. Nesse dia, compreenderemos que o marasmo foi apenas um capítulo  não o livro inteiro.

Por isso, quando a batalha invisível parecer insuportável, declare pela fé: “Não morrerei, mas viverei e contarei as obras do Senhor” (Salmo 118:17). Porque, no Reino de Deus, até as pausas têm propósito. E mesmo quando tudo parece parado, o Senhor continua trabalhando em silêncio, preparando-nos para a próxima estação.

Assim, ao final, não sairemos do vale apenas mais leves, mas mais sábios, mais fortes e mais próximos do nosso Salvador. E, olhando para trás, poderemos dizer. O marasmo letal foi o campo de treinamento onde aprendi a confiar, e o silêncio foi o lugar onde ouvi mais claramente a voz de Deus.

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