ENTRE O RIO E A SOMBRA
Somos iguais, mas nada parecidos.
Somos canções em melodias diferentes, como o rio e a sombra ambos seguem o seu caminho.O rio avança firme, contorna os obstáculos, e nada o impedirá de encontrar-se com o mar.
A sombra, porém, depende do sol para existir, é através das árvores que ela ganha forma e sentido.
Mas, nos dias chuvosos, ela simplesmente se desfaz, perde o seu encanto e desaparece, como se descansasse à espera da luz.Talvez sejamos assim partes de um mesmo todo, mas guiados por essências distintas.
Um segue o curso da vida com coragem, enfrentando ventos e pedras.
O outro se revela apenas quando há luz, lembrando-nos de que até a ausência pode ter beleza. Enquanto o rio flui, leva consigo histórias, memórias e pedaços do tempo .Ele não questiona o porquê das curvas nem teme os rochedos que surgem em seu caminho.Segue, simplesmente, porque entende que o movimento é a essência da vida.
A sombra, por outro lado, observa. Silenciosa, contempla o que se move à sua frente. Não precisa correr, não precisa chegar .Ela existe para lembrar que a presença também pode ser discreta, e que a calma é uma forma de sabedoria.O rio canta em seu murmúrio, enquanto a sombra dança nas paredes e nas folhas.
Ambos são passageiros, efêmeros, mas cumprem um propósito que vai além da aparência. O rio ensina sobre a persistência, a sombra, sobre a dependência da luz.
E é nesse contraste que encontramos a harmonia da existência, o movimento e o repouso, a força e a suavidade, a coragem e a entrega.
Há dias em que somos rio corajosos, intensos, transbordando sonhos e emoções.
Outros dias, somos sombra serenos, reflexivos, deixando que o tempo nos redesenhe. E não há erro em ser um ou outro, pois ambos revelam um lado da alma que aprende com o ritmo da vida. Talvez o segredo esteja em aceitar que cada ser tem o seu fluxo e o seu reflexo. Que nem sempre é preciso correr para o mar, e nem sempre é preciso esperar o sol. Às vezes, basta existir ser o que se é, no momento em que se é.
Assim como o rio e a sombra, seguimos nossos caminhos:
um feito de movimento e coragem, o outro de silêncio e contemplação.
Ambos diferentes, mas igualmente belos, igualmente necessários, igualmente vivos
porque, no fim, o rio e a sombra também se encontram,
quando o sol se põe sobre as águas e ambos se tornam um só reflexo no espelho do tempo.
Há algo de profundamente humano no rio e na sombra.
Ambos carregam em si o mistério da existência.
O rio representa o impulso da vida, o desejo de seguir adiante, mesmo quando as pedras tentam interromper o seu curso.
A sombra, por sua vez, simboliza aquilo que se recolhe, o lado que observa em silêncio, a parte de nós que não luta contra o tempo, mas o acolhe.
Enquanto o rio tem sede de chegada, a sombra tem sabedoria de permanência.
O rio precisa fluir para não se perder a sombra precisa repousar para não se dissipar. E talvez seja nesse contraste que o Criador nos ensina o equilíbrio, O equilíbrio entre agir e esperar, entre correr e aquietar-se.
Há momentos em que a alma é rio, transbordando emoção, fé, coragem e desejo de tocar o infinito.
Mas também há tempos em que é sombra, buscando refúgio, recolhimento e silêncio para compreender o que as águas agitadas não permitem ver.
E ambos os momentos são sagrados, pois o coração humano precisa tanto das correntezas quanto das pausas. O rio não se compara à sombra, e a sombra não inveja o rio. Cada um sabe o seu lugar no cenário da criação.
O rio nasce das alturas e termina no mar, cumprindo seu propósito.
A sombra surge da luz e desaparece com ela, também cumprindo o seu destino.
Não há inferioridade entre eles, apenas diferença.
E é justamente a diferença que faz o mundo ser belo, diverso, cheio de contrastes que se completam.
Assim também somos nós, criaturas únicas, porém ligadas por um fio invisível que nos torna parte de um mesmo universo.
Às vezes, queremos ser como um rio fortes, audaciosos, cheios de movimento.
Outras vezes, precisamos ser como a sombra discretos, pacientes, deixando que a vida se revele com o tempo.
Ambos os papéis têm valor, ambos são expressão da sabedoria divina que habita em cada detalhe da natureza. O rio segue, sem olhar para trás, porque sabe que tudo o que deixou para trás também o formou.
A sombra, mesmo imóvel, acompanha o caminhar dos dias, mudando de forma conforme o sol muda de posição.
Há beleza no movimento, e há beleza na quietude.
Há beleza em quem avança e em quem permanece.
Quando o rio encontra o mar, ele se dissolve em algo maior do que ele mesmo
assim como a alma, quando encontra o amor verdadeiro, deixa de pertencer apenas a si. A sombra, quando abraçada pela luz, revela a forma daquilo que antes era invisível, assim como a fé revela o sentido daquilo que a razão não alcança.Talvez o rio e a sombra nos lembrem de que tudo na vida é passagem, mas nenhuma passagem é em vão.
Cada curva do rio molda a paisagem, e cada instante da sombra desenha o tempo.
Ambos nos ensinam que viver é deixar rastros não de posse, mas de presença.
E que, ao final, o essencial não está em quanto fomos vistos, mas em quanto tocamos o coração de quem caminhou ao nosso lado.E assim seguimos, entre o fluxo do rio e o repouso da sombra.
Aprendemos que a vida não é apenas sobre chegar, mas também sobre permanece
Não é apenas sobre brilhar, mas também sobre refletir a luz que recebemos.
O rio nos ensina o movimento da fé, e a sombra nos revela a beleza da esperança.
Ambos se encontram no mesmo horizonte, onde o sol toca as águas e o tempo se cala.
E nesse instante eterno, entendemos que somos feitos de luz e silêncio, de caminho e descanso, de eternidade e amor.

