DO ÁTRIO AO SANTO DOS SANTOS
Foi naquele instante final, quando Ele disse: “Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito” (Lucas 23:46), que algo extraordinário aconteceu. A graça foi liberada sobre nós, a preço de sangue, por meio do sacrifício do Cordeiro de Deus. A Palavra de Deus relata os acontecimentos desse momento com detalhes poderosos.A terra tremeu, os sepulcros se abriram, e o véu do templo se rasgou de alto a baixo (Mateus 27:51-52). Nada disso foi simbólico, apenas foi real, foi espiritual, foi eterno. Esse poderoso mover nos concedeu legalidade diante do trono de Deus, mediante a nossa fé em Cristo Jesus.
O véu rasgado representa o fim da separação entre Deus e o homem. Aquilo que antes era acessível apenas ao sumo sacerdote uma vez por ano agora está disponível a todos os que creem. A morte de Jesus não apenas pagou o preço do pecado, mas também abriu um novo e vivo caminho (Hebreus 10:19-20), nos convidando a entrar com ousadia no Santo dos Santos.
No entanto, muitos de nós ainda vivem apenas nos átrios do Senhor, confortavelmente aquecidos pela presença da multidão. Permanecemos na superfície, satisfeitos com um relacionamento raso, alimentados por eventos e emoções, mas sem raízes profundas na intimidade com Deus. É mais fácil ficar nos átrios, onde a movimentação é constante, onde há distrações e onde a responsabilidade espiritual parece menor.
Mas é necessário avançar e crescer espiritualmente. O Espírito Santo nos chama a deixar os átrios e a entrar no Santo dos Santos o lugar da presença manifesta de Deus, o lugar do silêncio reverente, da entrega total, da transformação. É ali que selamos nossa aliança, nossa intimidade, nosso amor sincero com o Pai. É nesse lugar que deixamos de ser apenas servos e nos tornamos verdadeiros filhos, participantes da natureza divina.
Quando tocamos esse lugar espiritual, algo dentro de nós muda. Já não conseguimos mais respirar sem glorificar o nome do Senhor. O louvor se torna vida, a oração se torna respiração, e a Palavra de Deus se torna o alimento da alma. O mundo perde o brilho, e a presença de Deus se torna o nosso maior tesouro.
Permanecer no Santo dos Santos é o desejo de todo coração que verdadeiramente encontrou o Senhor. E ainda que sejamos chamados a viver neste mundo, nossos pés tocam a terra, mas nosso espírito habita nos céus. Que o nosso clamor diário seja: “Senhor, não nos deixes sair da Tua presença. Ensina-nos a permanecer em Ti, a viver contigo e para Ti.”
Para permanecer no Santo dos Santos, é preciso renúncia. Esse lugar não é acessado com pressa ou superficialidade. Ele exige pureza de coração, temor santo, e sobretudo, sede pela presença de Deus. A porta foi aberta por Cristo, mas o caminhar até lá exige um coração quebrantado. Não se entra nesse lugar com orgulho, vaidade ou intenções egoístas. Ali, tudo o que é carnal morre, e o espírito se rende completamente à vontade do Pai.
É neste ambiente que o Espírito Santo ministra cura, direção, restauração e consagração. Lá, não há distrações. Tudo se cala para que a voz do Senhor seja ouvida com clareza. Muitos querem as bênçãos de Deus, mas poucos estão dispostos a permanecer onde a glória Dele é revelada, porque neste lugar somos confrontados, purificados e moldados. O Santo dos Santos é, ao mesmo tempo, um lugar de consolo e confronto. A carne não sobrevive ali; somente o espírito pode permanecer de pé.
Assim como Moisés, que subiu ao monte e permaneceu face a face com Deus, somos chamados a essa mesma intimidade. O rosto de Moisés resplandecia após esse encontro (Êxodo 34:29), e assim acontece conosco: quanto mais próximos estamos do Pai, mais nos tornamos parecidos com Ele. O brilho de Sua glória começa a se refletir em nossas atitudes, palavras e escolhas. A vida com Deus deixa de ser teoria e se torna prática. Já não falamos de Deus apenas com conhecimento, mas com experiência viva.
Permanecer no Santo dos Santos não é apenas um momento de adoração intensa em um culto ou em um quarto secreto. É um estilo de vida. É escolher, todos os dias, viver em santidade. É fazer do altar o nosso lugar de morada. É manter o coração inclinado, os ouvidos atentos e a alma rendida. É não permitir que nada, absolutamente nada, substitua a presença de Deus.
O que muitas vezes impede nosso acesso mais profundo à presença do Pai são as distrações do dia a dia, o apego ao pecado, e a falta de disciplina espiritual. Vivemos em tempos onde tudo concorre por nossa atenção, mas a Palavra nos ensina: “Aquietai-vos e sabei que Eu sou Deus” (Salmos 46:10). O silêncio diante do Senhor é necessário para que possamos ouvir a Sua doce voz.
E uma vez que provamos dessa presença, nunca mais somos os mesmos. Ela nos marca de forma definitiva. Os problemas não desaparecem, mas nossa maneira de enfrentá-los muda. A fé é fortalecida, o amor é renovado, e a esperança é reacesa. O Santo dos Santos é onde Deus nos revela quem Ele é e, ao mesmo tempo, nos revela quem nós somos n’Ele.
Portanto, que nosso maior desejo não seja conquistar coisas terrenas, mas habitar na presença do Altíssimo. Que nossos dias sejam vividos com os olhos fixos naquele que abriu o caminho. Que jamais nos conformemos com os átrios, mas sejamos impulsionados a ir além ao lugar da essência, do segredo, da intimidade. Ali, onde os anseios cessam, e tudo o que importa é estar com o Pai.
Avançar para o Santo dos Santos é também aceitar o convite de Jesus: “Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós” (João 15:4). Essa permanência não se trata apenas de uma visita à presença de Deus, mas de um habitar constante, onde tudo em nós passa a estar alinhado com o coração do Pai. Neste lugar, a oração se torna mais do que petição torna-se comunhão. A adoração ultrapassa a música e torna-se entrega. O tempo com Deus não é mais uma obrigação, mas o nosso prazer diário.
O Santo dos Santos é o lugar onde aprendemos a amar a vontade de Deus, mesmo quando ela nos confronta. É onde morre o nosso “eu” e nasce a nova criatura em Cristo. É ali que o orgulho se desfaz, que as máscaras caem e que recebemos vestes novas, purificadas pelo sangue do Cordeiro. Entrar nesse lugar exige santidade, mas também é nele que Deus nos santifica, porque Sua presença transforma tudo o que toca.
Que possamos, dia após dia, negar a superficialidade e buscar profundidade. Que não sejamos como os que ficam apenas na entrada, assistindo de longe, mas como aqueles que ousam atravessar o véu, com reverência e fé. Que sejamos como Ana, que orava com fervor no templo; como Samuel, que ouvia a voz de Deus desde menino; como Davi, que desejava habitar na casa do Senhor todos os dias da sua vida (Salmo 27:4).
No Santo dos Santos, encontramos tudo o que nossa alma realmente precisa: paz, propósito, identidade e amor verdadeiro. Que o nosso clamor constante seja: “Leva-me mais fundo, Senhor. Não quero apenas saber sobre Ti quero Te conhecer, andar Contigo, viver em Ti e para Ti. Que a Tua presença seja o meu lar eterno.”
Amém.

