AMAR ALÉM DA MEDIDA
“Porque, se amardes os que vos amam, que recompensa tendes?” Mateus 5:47
Há uma simplicidade e, ao mesmo tempo, uma profundidade imensa nas palavras de Jesus. Ele não fala de um amor comum, aquele que floresce naturalmente quando há reciprocidade. Fala de um amor que desafia a lógica humana o amor que ultrapassa o limite do “eu mereço” ou “ele merece”.
Amar quem nos ama é fácil. É o tipo de amor que surge nos relacionamentos harmoniosos, nas amizades sinceras, nas famílias unidas. Mas Jesus nos convida a ir além disso. Ele nos chama a amar os que não nos compreendem, os que nos ferem, e até aqueles que nos rejeitam. E é aí que o verdadeiro evangelho ganha forma dentro de nós.
O amor de Deus é um amor que não escolhe terreno fértil; Ele semeia até nas terras áridas do coração humano. Quando Jesus diz que devemos amar além dos nossos círculos de afeto, Ele está nos convidando a viver como filhos do Pai Celestial, que faz o sol nascer sobre justos e injustos. Esse tipo de amor não se baseia em sentimentos, mas em decisão e fé.
Na prática, isso significa perdoar quando não há pedido de perdão, orar por quem nos magoou, e agir com bondade quando o instinto pede distância ou vingança. Amar assim dói, mas essa dor é o terreno onde o Espírito Santo trabalha, moldando nosso coração para parecer mais com o de Cristo.
Jesus sabia que esse amor seria um desafio. Ele próprio viveu isso amou Judas, que o traiu,Pedro, que o negou, e a multidão que o crucificou. E mesmo assim, do alto da cruz, orou: “Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem.”
Quando escolhemos esse caminho, não ganhamos aplausos nem reconhecimento, mas ganhamos algo maior,a paz de saber que estamos amando como o Pai ama. E essa é a verdadeira recompensa.
Amar os que nos amam mantém o coração confortável; amar os que não nos amam, o transforma. É nesse tipo de amor que encontramos a liberdade da alma e o verdadeiro reflexo do Reino de Deus.
Amar sem esperar retorno é o ato mais divino que um ser humano pode realizar. É nesse amor que nos tornamos parecidos com Cristo e é aí que o mundo começa a enxergar Deus através de nós.
Amar quem não nos ama é uma das maiores expressões de maturidade espiritual. É quando o coração aprende a agir não por impulso, mas por propósito. Jesus não nos chamou para viver um amor condicionado, mas um amor que se doa, mesmo quando não é correspondido. Esse é o amor que muda o mundo não com palavras, mas com atitudes silenciosas e sinceras.
Em nossa caminhada, encontramos pessoas que nos machucam, nos decepcionam, e às vezes até zombam da nossa fé. Nessas horas, é natural que o coração se feche. A dor fala alto, o orgulho tenta se erguer e a vontade de retribuir o mal surge como uma defesa. Mas é justamente nesse momento que o Espírito Santo nos chama para um caminho mais alto, o caminho do perdão e da compaixão.
Jesus não nos pede para ignorar as feridas, mas para reagir de forma diferente. Ele nos ensina a responder com amor porque o amor verdadeiro não nasce da força humana, mas da presença de Deus em nós. Quando conseguimos amar quem não merece, é sinal de que o amor de Cristo tomou o controle do nosso coração.
Esse tipo de amor não é fraqueza, é força. É escolher não se tornar igual àqueles que ferem, é preservar a essência mesmo em meio à dor. Amar os que nos amam é um gesto natural; amar os que nos rejeitam é um ato sobrenatural. E é nesse amor que nos tornamos verdadeiramente livres, pois deixamos de ser escravos da mágoa, do ressentimento e do orgulho.
Cada vez que escolhemos o amor, mesmo quando seria mais fácil virar o rosto, estamos semeando algo eterno. Pode ser que o outro nunca mude, pode ser que nem perceba o bem que lhe fizemos, mas Deus vê e ele recompensa não com bens materiais, mas com uma paz que o mundo não pode oferecer.
Há uma beleza silenciosa em amar sem retorno. É o tipo de amor que reflete o próprio coração de Cristo. Ele não esperou ser amado para amar; ele amou primeiro. E é por isso que o evangelho tem poder porque é baseado nesse amor desinteressado e incondicional.
Amar como Jesus amou é caminhar contra a corrente. É escolher ser luz em meio à escuridão, mesmo quando ninguém entende. É perdoar setenta vezes sete, é abençoar quem nos amaldiçoa, é desejar o bem até para aqueles que desejam o mal. E isso só é possível quando o coração está cheio de Deus.
Quando deixamos o amor governar nossas atitudes, o mal perde o poder sobre nós. As feridas não determinam mais nossos passos, e o passado deixa de prender a alma. Amar torna-se, então, uma forma de cura.
Por isso, as palavras de Jesus ecoam com tanta força: “Se amardes os que vos amam, que recompensa tendes?” A recompensa não está nos aplausos, mas na transformação interior. É o céu começando a se manifestar dentro de nós.
Amar além da medida é caminhar no mesmo compasso do coração de Deus. É ser reflexo da graça que recebemos e instrumento da paz que o mundo tanto precisa.
Amar como Cristo amou é um chamado à eternidade. É viver de modo que o Céu se reflita em nossos gestos mais simples. Quando escolhemos amar, mesmo quando tudo em nós grita para desistir, estamos dizendo a Deus: “Eu confio em Ti mais do que nas minhas emoções.” E é nessa entrega que o amor se torna uma semente divina plantada em solo humano.
O amor verdadeiro não busca retorno; ele floresce mesmo quando o outro não retribui. E cada ato de amor genuíno é uma oração silenciosa, uma forma de adoração. Porque amar é servir a Deus, e não apenas às pessoas.
A recompensa prometida por Jesus não é terrena e espiritual. É a paz que envolve o coração depois do perdão, é o alívio que vem quando soltamos o peso da ofensa e escolhemos o bem. Essa é a vitória dos filhos da luz, vencer o mal com o bem, e continuar amando quando o mundo espera ódio.
No fim, amar os que não nos amam é a prova de que Cristo vive em nós. E quando esse amor se torna real, não há dor que nos separe de Deus, nem escuridão que apague a luz que Ele acendeu dentro de nós.
Amar é o caminho mais difícil, mas também o mais sagrado é o caminho que nos conduz de volta ao coração do Pai.

