ALÉM DOS SINAIS: A FÉ QUE PERMANECE
Há momentos na vida em que conseguimos impressionar as pessoas. Um gesto bondoso, uma palavra bonita, uma atitude de fé e logo somos vistos como alguém especial. Mas, diante de Jesus, não existe impressão possível. Ele não se deixa levar apenas pelas aparências, porque enxerga muito mais fundo, vê a motivação, a intenção, aquilo que está escondido até de nós mesmos.
No evangelho de João(2:23-25) nos conta que muitas pessoas creram no nome de Jesus ao verem os sinais que ele fazia. Quem não ficaria encantado.Cegos voltando a enxergar, enfermos sendo curados, palavras cheias de sabedoria. Era de se esperar que essa fé fosse suficiente para ganhar a confiança do Mestre. Mas não foi. João nos diz que “Jesus não se confiava a eles”, porque conhecia o coração humano.
Essa afirmação é, ao mesmo tempo, desconfortável e libertadora.
Desconfortável porque revela que podemos estar crendo de forma superficial apenas tocados pelo que Deus pode fazer, e não rendidos a quem Deus é. Libertadora porque nos lembra que Jesus não se engana com nossas máscaras. Ele nos vê exatamente como somos e ainda assim não desiste de nos chamar para perto.
Talvez isso explique por que, logo depois dessa passagem, João narra o encontro de Jesus com Nicodemos. Nicodemos era um homem religioso, respeitado, estudioso das Escrituras. Mas Jesus vai direto ao ponto: Você precisa nascer de novo. Ou seja, não basta admirar os sinais ou reconhecer que ele é especial é preciso uma transformação interna, um recomeço que vem do Espírito.
E essa é a grande questão para nós hoje: Qual é a base da nossa fé, o que recebemos de Deus. É a esperança de que ele resolva nossos problemas ou é um relacionamento real, em que o amamos pelo que ele é, mesmo quando os sinais e milagres não acontecem como esperamos.
Jesus conhece o coração humano, o meu e o seu. Ele sabe quando nossa fé é frágil, misturada com dúvidas ou interesses pessoais. Mas Ele também sabe quando existe ali um desejo sincero de crescer, mesmo que ainda não estejamos prontos. E é nesse espaço, entre a nossa limitação e o seu amor, que ele trabalha, pacientemente, até que nossa fé amadureça.
Talvez hoje seja um bom momento para orar de forma honesta, dizendo:
“Senhor, Tu me conheces por inteiro. Tira de mim toda fé superficial. Ensina-me a confiar em Ti pelo que Tu és, e não apenas pelo que podes fazer. Quero que o meu coração seja Tua morada.”
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Esta palavra nos coloca diante de um contraste interessante, muitas pessoas estavam encantadas com Jesus. Elas o seguiam, admiravam os sinais, comentavam sobre seus milagres. Aos olhos de qualquer um, parecia que havia ali um grande avivamento. Mas, surpreendentemente, João nos revela que Jesus não se confiava a elas.
Isso pode soar estranho. Afinal, não é justamente isso que Deus quer,que as pessoas creiam sim, mas Jesus conhecia algo que os outros não viam.Ele sabia o que se passava no íntimo de cada coração. Ele sabia que muitas daquelas pessoas estavam movidas mais pelo fascínio dos milagres do que por uma decisão sincera de segui-lo.
Essa passagem é um espelho para nós. Quantas vezes nos aproximamos de Deus movidos por uma necessidade urgente, por um pedido específico, ou pela esperança de que ele resolva nossos problemas não é errado pedir, nem buscar ajuda. O problema é quando a nossa fé se limita a isso. Quando Deus deixa de ser a razão principal e passa a ser apenas o meio para alcançar o que queremos.
Jesus, conhecendo a natureza humana, não se iludia com aplausos ou multidões. Ele sabia que o coração é instável, que um mesmo grupo que o aclama hoje pode rejeitá-lo amanhã. E essa percepção não o tornava frio ou distante, pelo contrário, revelava seu amor maduro, ele não buscava relacionamentos superficiais, mas transformações profundas.
O texto também nos convida a pensar na diferença entre crer por causa dos sinais e crer por quem ele é. Uma fé baseada apenas no que vemos é como uma casa construída sobre areia parece firme enquanto tudo está calmo, mas cede quando a tempestade vem. Já a fé que se firma no caráter e na pessoa de Jesus resiste até mesmo quando não há sinais visíveis.
Esse é um desafio real. Vivemos num mundo rápido, imediato, onde somos ensinados a esperar resultados instantâneos. Mas o relacionamento com Deus é um processo, e, muitas vezes, um processo silencioso. Ele nos chama a confiar mesmo quando não entendemos, a obedecer mesmo sem ver o quadro completo.
O mais belo é que, embora Jesus conheça todas as nossas fragilidades, ele continua nos amando e nos convidando para um relacionamento mais profundo. Ele vê as intenções escondidas, as lutas que não mostramos, os medos que tentamos disfarçar e ainda assim, permanece ao nosso lado. Isso significa que não precisamos fingir diante dele. Podemos ser honestos, admitir nossas motivações e pedir que ele nos purifique de toda fé superficial.
Jesus não busca seguidores temporários. Ele busca discípulos de coração inteiro. E esse convite continua ecoando hoje.
Seguir Jesus de forma genuína é um caminho que envolve vulnerabilidade. Não basta dizer “eu creio” é preciso permitir que ele transforme o nosso coração, nossas prioridades e até a forma como interpretamos as circunstâncias. Essa transformação nem sempre é confortável. Muitas vezes ela exige que abandonemos ilusões, expectativas egoístas e até crenças distorcidas sobre quem Deus é.
Quando João registra que Jesus “não se confiava a eles”, isso não significa rejeição definitiva, mas um alerta. Ele não constroi sua obra sobre fundamentos frágeis. E isso é amor. ele prefere lapidar a nossa fé antes que o vento das provações a derrube. É como um construtor que, ao ver um alicerce mal feito, decide reconstruí-lo, mesmo que isso leve mais tempo, para que a casa permaneça firme.
Precisamos sempre interrogar o nosso coração, se estamos realmente firmados na rocha que é Cristo Jesus.
A verdade é que Jesus continua conhecendo o íntimo de cada um. Ele sabe quando nosso eu creio é frágil, mas também sabe quando existe dentro de nós um desejo sincero de amadurecer. E é exatamente nesse espaço entre a nossa limitação e a graça dele que o milagre mais profundo acontece.A transformação de um coração que crê apenas nos sinais para um coração que crê no Salvador.
Que possamos, hoje, nos apresentar diante dele sem máscaras, com toda a nossa verdade. Porque a fé que nasce dessa entrega é a única que permanece, mesmo quando os sinais se calam.

