AINDA ESTOU AQUI
Há um silêncio preso na garganta, um suspiro na alma, ocupando os espaços vazios. Ele bloqueia as saídas do espírito, fecha os caminhos dos sonhos, seca as fontes do amor e apaga as marcas da minha existência, como se a verdade se escondesse atrás das sombras do ser.
É como se, aos poucos, eu estivesse desaparecendo de dentro para fora não o corpo, mas aquilo que me faz ser. Um cansaço sem nome toma conta dos meus dias, e até o tempo parece desacelerar diante da minha apatia. Olho para o céu, mas nem mesmo as nuvens respondem. Tento me ouvir, mas o ruído interno é alto demais. Uma confusão de sentimentos se agita sem direção, e eu me perco dentro de mim.
Talvez esse silêncio não seja apenas ausência de som, talvez seja excesso de tudo,de dores não ditas, de palavras engolidas, de verdades sufocadas. Há um peso invisível que me acompanha, e ele tem a forma das decepções, das esperas frustradas, dos afetos que não floresceram. Os caminhos que antes pareciam claros agora são poeira. Os sonhos, antes vívidos, tornaram-se memórias embaçadas de um tempo que não volta mais.
Sinto saudade de mim mesmo. Da leveza que eu tinha quando acreditava que amar era simples. De quando a fé era espontânea e o coração ainda se permitia confiar. Hoje, tudo parece exigir esforço amar, crer, permanecer. Mas mesmo com tudo isso, algo ainda pulsa. Talvez seja uma centelha escondida entre os escombros. Um fio de esperança tímido, mas vivo.
E é por essa centelha que eu continuo. Mesmo em meio ao caos, há algo em mim que se recusa a desistir completamente. Pode ser que ainda haja um caminho não percorrido, uma nova estação esperando florescer. Talvez o silêncio esteja apenas preparando terreno para algo mais profundo, um recomeço, uma reconexão, uma nova maneira de existir.
Sim, há um silêncio preso na garganta, e há dor, há saudade, há confusão. Mas também há um grito que deseja nascer, há um clamor por cura, por verdade, por liberdade. Ainda que abafado, ainda que pequeno, ele está aqui. E enquanto ele existir, ainda há vida.
E se há vida… há possibilidade.
Mas viver com essa possibilidade exige coragem. Coragem de encarar as próprias ruínas, de reconhecer que algumas partes de nós precisam morrer para que outras possam nascer. É um processo lento, quase imperceptível aos olhos, mas poderoso no invisível. Porque antes da cura, vem a revelação; antes da luz, vem a consciência da escuridão.
E, aos poucos, percebo que o silêncio não é meu inimigo. Ele é o espelho que me obriga a ver o que evitei por tanto tempo. Ele revela os vazios que eu tentei preencher com distrações, com palavras vazias, com relacionamentos frágeis. O silêncio escancara minha dependência de tudo o que não é essencial, e me convida a voltar ao que é real, ao que permanece quando tudo o resto falha.
Talvez eu tenha me perdido tentando agradar, tentando ser forte o tempo todo, tentando esconder minhas fragilidades para não incomodar ninguém. Mas não dá mais. Meu coração pede verdade. Minha alma pede abrigo. E esse abrigo não está nas máscaras, nem nas aparências. Está em ser inteiro, mesmo que quebrado. Está em ser sincero, mesmo que em lágrimas. Está em ser humano.
É aí que percebo que não estou só. Há um Deus que conhece cada suspiro que não sei nomear. Um Deus que ouve o grito que ainda não consegui soltar. Ele não se assusta com o meu caos, nem se afasta da minha dor. Pelo contrário, ele se aproxima, ele entra nas minhas sombras com sua luz, e me mostra que até as noites mais longas terminam de manhã.
E talvez eu não precise ter todas as respostas agora. Talvez tudo o que eu preciso é descansar nessa certeza, ainda sou amado, mesmo nos meus silêncios. Ainda sou visto, mesmo nos meus esconderijos. Ainda sou conduzido, mesmo quando meus pés hesitam.
Aos poucos, os caminhos se tornam mais nítidos. A alma, que antes estava travada, começa a se abrir para sentir de novo. Há pequenas gotas de esperança que regam o chão seco do coração. Há gestos simples que voltam a fazer sentido um abraço, uma oração, um olhar sincero. E, com eles, o amor começa a brotar de novo. Não como antes, mas mais maduro, mais sereno, mais real.
Não quero mais correr da dor, nem fingir que está tudo bem. Quero aprender a crescer a partir dela. Quero permitir que ela me transforme, me aproxime de Deus, me ensine a valorizar o que realmente importa.
Se o silêncio me fez chegar até aqui, então talvez ele também seja um presente. Um convite para ouvir o que o barulho do mundo sempre abafou, a voz suave de Deus dizendo que ainda há vida, ainda há propósito, e que minha existência tem valor mesmo quando tudo parece apagado.
Sim, há um silêncio preso na garganta mas agora sei, ele também carrega promessas. E onde há promessas, há esperança
E essa esperança, mesmo que pequena como uma semente, começa a romper a terra dura do meu interior. Não faz alarde, não exige pressa, não cobra perfeição. Apenas insiste em nascer. É com ela, percebo que a vida não se resume às dores do passado, nem às perdas que me marcaram. Há algo maior sendo costurado por trás de cada lágrima algo que os olhos ainda não veem, mas que o coração começa a pressentir.
É preciso fé para continuar, mesmo sem garantias. É preciso fé para recomeçar, mesmo quando tudo parece terminado. Mas descobri que essa fé não precisa ser imensa, basta que seja sincera. Basta que seja verdadeira. Porque Deus não despreza corações quebrantados. Pelo contrário, Ele se aproxima deles. Ele transforma cinzas em beleza. Ele dá novo fôlego ao que parecia morto.
E então entendo que não estou à deriva. Estou sendo guiado por mãos invisíveis que conhecem os caminhos que eu não vejo. E mesmo que a jornada siga silenciosa por um tempo, o silêncio já não me assusta como antes. Agora sei que ele pode ser um lugar sagrado, um espaço onde Deus fala baixinho, mas de forma profunda. Onde Ele me refaz em segredo, como um oleiro moldando o vaso trincado com cuidado e intenção.
Aos poucos, o suspiro da alma se torna oração. A angústia vira entrega. O vazio, espaço para o novo. E as marcas que antes me envergonhavam, agora contam uma história não de fracasso, mas de sobrevivência. De graça. De restauração.
Sim, há um silêncio preso na garganta. Mas agora ele está se desfazendo. Está abrindo espaço para uma nova voz, a minha. Uma voz que não precisa mais se esconder, nem fingir. Uma voz que aprendeu a dizer: “Eu ainda estou aqui. Ainda creio. Ainda respiro. E isso basta.”
Porque viver, no fim das contas, é isso continuar, mesmo em meio ao invisível. Amar, mesmo quando dói. Crer, mesmo quando tudo parece incerto. E saber que, mesmo no silêncio mais profundo, Deus nunca deixou de estar comigo.
E por isso, eu sigo. Com fé, com cicatrizes, com esperança. Porque o amor me encontrou. E nele, reencontrei a mim mesmo.A

